
Las Meninas - Diego Velázquez
Museo del Prado - Madri
Hoje é o aniversário de nascimento de Diego Rodríguez de Silva Velázquez, que nasceu num 6 de junho como este, no ano de 1599, na magnífica cidade de Sevilha, na Espanha, para tornar-se o seu mais importante artista no século 17. Pelos seus efeitos de forma e textura, espaço, luz e atmosfera – criados pela brilhante diversidade de técnicas do pincel e por sutis harmonias de cor, foi o precursor dos impressionistas do século 19. Para saber mais sobre ele, leia aqui, na confiável Enciclopédia Britânica.
O quadro lá de do início - Las Meninas - é uma obra-prima de luzes e cores, mas também de narrativa. Todas as figuras estão presentes, arrumadas genialmente - um auto-retrato do artista à esquerda, reflexos do Rei Felipe IV e da Rainha Mariana no espelho no fundo da sala, e da Infanta Margarita com as suas meninas, como eram chamadas as damas de honra, na frente. O olhar sempre pode ir adiante, descobrir e descobrir, porque ali não está só um quadro, mas uma crônica inteira da côrte, da Espanha, das artes, naquela época, além de uma provocação que ecoa hoje, agora. Pensar também é assim – memórias, imaginações, devaneios, vontades, uma coisa que leva a outra, que leva a outra, e mais uma, ainda, sempre mais uma... E daí?

Las Meninas, após Velázquez - Francisco Goya
Metropolitan Museum – Nova Iorque
Ou como Picasso que se fechou no estúdio da sua casa La Californie, perto de Cannes, entre agosto e dezembro de 1957, para produzir 58 óleos sobre tela a partir de Las Meninas – quarenta e quatro inspiradas diretamente no modelo, nove pequenos pombos, três paisagens e duas interpretações livres. Picasso estava mais interessado no desenvolvimento do seu próprio pensamento, do que nas “idéias”, elas mesmas, como coisas estáticas e admiráveis, que podem interromper o fluxo, cobrar compromissos, paralisar.

Las Meninas, após Velázquez - Pablo Picasso.
Museu Picasso, Barcelona.
Ou, ainda, a fotógrafa austríaca Jaqueline Vanek, que “pensou” Las Meninas com fotografia e colagem:

Las Meninas, após Velázquez - Jaqueline Vanek
Coleção da Artista
O quadro registra um momento, um exato e veloz momento, quando os pais da Infanta, Reis de Espanha, entram na sala do Palácio de Alcàsser, em Madri, onde o artista trabalhava, para visitar a pequena Marquerita - ela é a protagonista do evento, no centro e na frente. As figuras deles estão no espelho, no centro e ao fundo, e tudo na imagem se organiza neles. Mas os olhares convergem – neste duplo que Velázquez cria pelo artifício do espelho – “para cá”, para nós, eu e vocês, e todos os que olharam alguma vez para Las Meninas nestes últimos 350 anos – o quadro se dirige, coloca em destaque, este público imenso, incontavelmente maior do que todas as cortes de Espanha – o público. Nós. Todos nós.
Um, mais um, outro, outro ainda, um para o outro, para o outro, numa cadeia possivelmente infinita de olhares e pensares. Idéia-criação que dispara idéias e criações. E daí?
Daí que Yo-Yo Ma vai se apresentar em São Paulo três vezes – 18, 19 e 20 de junho. Daí que continuam a perguntar se ele é o número 1 do violoncello, e ele tem que explicar, como todo músico tem que explicar - que música não é campeonato de nada. Daí que continuam a dizer que a música popular e a música clássica e tal e tal. E ele tem que explicar, com muito cuidado, que as categorias são outras.
E daí?
Daí que precisamos insistir em cadeias que podem ser infinitas – de imagens, de obras-primas, de interpretações e interpretações, de entendimentos e diálogos, onde as categorias classificatórias, emperram, atrapalham, desviam.
E daí? Daí, Yo-Yo Ma, um violoncelo, uma Suíte de Bach, e quinhentos anos de arte sobre a mais intrigante beleza.
Daí que olhei para o lado e minha mulher tinha minha filha nos braços e elas se olhavam. E eu pensei nestes rostos femininos, nestas imagens em reflexo e aprendizagem e mútua invenção. Nestes rostos que são mais femininos quanto mais são permanente transformação.
Eu, o que olha, o que busca, o que perplexo, admirado de amor, me confesso.