Eu sou um fã de diminutivos e acho que “cineminha” designa um programa inteiro – avaliar opções, comer pipoca, sair em silêncio de mãos dadas, comparar opiniões, voltar para casa feliz. Mesmo quando não gosto do filme. E não é coisa que se faça ou que se vá, mas como onda oportuna e de tamanho certo: “cineminha” é coisa que se pega.
Nós não pegávamos um cineminha há meses, por conta da gravidez, do parto, dos horários da amamentação, da falta de vontade de ficar longe da Lara. Outro dia nos programamos e seguimos a orientação da minha mãe: fomos assistir ao Um lugar na platéia (Fauteuils d' Orchestre de Danièle Thompson).
Ela tinha gostado do filme e elogiava aquilo que procurávamos: um filme bem feito, leve e despretensioso, para sair do cinema de alma leve. O que se costuma chamar de “obra de evasão” - um livro, um filme que sirva para esquecermos da vida, para fugirmos dela. Mas não é sempre assim? Não me lembro de uma obra marcante que não me tirasse do mundo tal como ele é. O melhor do que li ou assisti me tirou daqui, do agora, do que sempre nos enganamos ao chamar de realidade. Talvez seja mesmo esse o fundamento da fantasia: esquecer da realidade, fugir dela e, assim, provocar idéias, sentimentos, imaginação para o que a tal realidade, essa arrogância da mais precária das racionalidades, não dá conta. Sérgio Abranches usa uma expressão (no mais das vezes falando de cinema) que me parece perfeita: “intelectual de plantão”. O sujeito só pode ler, ver e ouvir coisas que contenham uma “mensagem”, que o faça “refletir”. Pois eu acho que gargalhadas adoçam o fígado e azeitam as engrenagens, que ver Paris nunca é demais, que personagens bens construídos não estão apenas no teatro grego lido no original. Quem me ensinou a amar os livros, as idéias e a necessidade de fantasiar foram uma boneca de pano, um sabugo de milho sabichão, um porco que era marquês reunidos num sítio com um menino corajoso, uma menina impertinente, todos adoçados por uma avó e uma cozinheira cheias de afetos, guloseimas e sabedorias.
Minha mãe, os comentaristas e críticos que encontrei tinham razão. O filme é uma delícia, o elenco é ótimo, as cenas de Paris, lindas. Mas, para minha surpresa, vi mais do que isso em Um lugar na platéia.
INCOMPLETOS
Certamente Jessica é uma moça vinda da província que quer seguir os passos da avó que trabalhara no Hotel Ritz, mas se contenta com o emprego de garçonete num café da Avenue Montaigne e não tem nem um lugar para dormir. Claro que que Catherine não se satisfaz com o sucesso popular ou com a fortuna que ganha na TV, que detesta o diretor da peça que está ensaiando e que quer muito interpretar Simone de Beauvoir no filme de um diretor americano que, por sua vez, não está feliz com o rumo do seu trabalho. Também é verdade que o pianista Jean-François Lefort trabalha e viaja demais e não agüenta mais o mundo artificial e superficial do circuito internacional de concertos, e que sua mulher, Valentine, não entende a cara feia do seu marido consagrado que não valoriza toda a dedicação dela, muito menos o desejo absurdo de morar à beira de um lago isolado. Também é verdade que Jacques Grumberg está triste pela viuvez, pela doença que enfrenta, pela briga interminável com seu filho Frédéric que acha seu pai um idiota em namorar a moça com quem ele próprio já teve um caso, e que não agüenta mais seu próprio casamento. Em resumo, todos eles estão insatisfeitos. Como é claro que, diante do sucesso e da fortuna de tanto deles, o filme poderia ser um desfile de mimados entre aplausos e milhões de euros. Mas não é disso que o filme trata.
O filme que vi nos apresenta um pianista doido para se livrar de tudo o que, em geral, mais se deseja: viagens internacionais, suítes nababescas, agendas e teatros lotados, ovações intermináveis, cachês milionários. Ele quer voltar ao que ama: a música, o piano, a sua mulher. Vi um filme sobre um homem que, tendo perdido a mulher com quem construiu tudo do que se orgulha, prefere vender o que acumulou porque precisa concentrar-se no essencial: viver. Seu filho precisa livrar-se da dor nas costas, do casamento traído, da amargura contra seu pai, para buscar o que está por ali, ao alcance das suas mãos cheias de possibilidades: uma escultura de Brancuzzi em que estará o que significa e o que promete – a memória da mãe, o presente do pai, o beijo de um futuro amor. Está lá. Como também a porteira do teatro que, faltando o talento para o canto, passou a vida perto dos artistas, acarinhada por eles, ouvindo e cantando, o dia inteiro, a música francesa que traz sempre pendurada nos ouvidos. Quem nos conta isso é ela, ao ser homenageada no dia de sua aposentadoria e nos confessar, singelamente, que, assim, foi feliz. Lá também há um feliz diretor de cinema que descobriu a estrela dos seus sonhos – inteligente, esperta, grande comediante, faminta, capaz de propor uma Simone que tinha que aturar aquele Sartre horroroso dado conquistas inúteis: ele era péssimo na cama. Mas a Simone que Catherine propõe tinha um motivo a movê-la, não uma razão a explicá-la – ela o amava. Felicíssima está esta atriz que, insatisfeita com fama e fortuna, está ali para nos lembrar que não nos enganemos – a felicidade está lá, incompleta, a realizar-se, onde ela sempre estará: além. O sucesso, como indica a sua raiz latina, succedere, não é um lugar aonde chegamos, mas algo em que podemos permanecer. O nome que damos a esta busca nomeia nossa vida. Sabendo que a fama e a fortuna trazidas pela ridícula série de tv em que trabalha não a satisfará, ela está ali para realizar aquilo com o que escolheu batizar-se - a sua arte.
CINEMINHA
A arte me parece ser a grande estrela do filme, seu tema e sua revelação. A de fazer música, de representar, de dirigir. Eles estão todos ali para mostrar que ela não está apenas no aplauso: até as platéias parisienses podem ser muito ignorantes. Ela também não está apenas na obra: colecionar, possuir, reter, não é ter a arte. Ela não está em parte alguma senão naquilo que Brancuzzi não adivinhava ao esculpir na pedra um beijo, ou em cada nota que Jean-François cavou para compreender e compartilhar Beethoven, como na paixão do colecionador Jacques e da porteira do teatro, e da mulher do pianista. Jessica está feliz. Conheceu tanta gente, viu o mundo para além da província, conseguiu seu emprego, já não perde tempo chorando por pena de si mesma, nem tem medo de não encontrar um lugar para dormir – ela fez vários amigos. Sua avó veio visitá-la, ela ganhou um beijo de um homem que acaba de entender que ainda pode amar e está próxima dos artistas melhores que há. Não porque são famosos ou ricos; mas porque não estão dispostos a trocar nada pela busca, incessante, interminável, da arte. Ela sabe o lugar que quer: “um lugar na platéia – nem tão perto, nem tão longe”. Esse é o lugar da arte. Nem do autor, do intérprete ou do público, a arte está sempre sendo feita em algum lugar, em diversos momentos, entre eles. Como a felicidade, ela está além. Saí do cinema feliz.
Las Meninas - Diego Velázquez Museo del Prado - Madri
Hoje é o aniversário de nascimento de Diego Rodríguez de Silva Velázquez, que nasceu num 6 de junho como este, no ano de 1599, na magnífica cidade de Sevilha, na Espanha, para tornar-se o seu mais importante artista no século 17. Pelos seus efeitos de forma e textura, espaço, luz e atmosfera – criados pela brilhante diversidade de técnicas do pincel e por sutis harmonias de cor, foi o precursor dos impressionistas do século 19. Para saber mais sobre ele, leia aqui, na confiável Enciclopédia Britânica.
Vamos aproveitar e reunir os nossos aniversariantes recentes neste filme com as obras de Diego e a Suíte espanhola para piano, Op. 47, No.1: Granada, de Isaac Albéniz, aqui adaptada para o violão.
O quadro lá de do início - Las Meninas - é uma obra-prima de luzes e cores, mas também de narrativa. Todas as figuras estão presentes, arrumadas genialmente - um auto-retrato do artista à esquerda, reflexos do Rei Felipe IV e da Rainha Mariana no espelho no fundo da sala, e da Infanta Margarita com as suas meninas, como eram chamadas as damas de honra, na frente. O olhar sempre pode ir adiante, descobrir e descobrir, porque ali não está só um quadro, mas uma crônica inteira da côrte, da Espanha, das artes, naquela época, além de uma provocação que ecoa hoje, agora. Pensar também é assim – memórias, imaginações, devaneios, vontades, uma coisa que leva a outra, que leva a outra, e mais uma, ainda, sempre mais uma... E daí?
Daí que Velázquez me lembrou da Espanha, que me lembrou Madrid, que me lembrou seus museus, que me lembrou os artistas que ficaram encantados com aquela obra do mestre Diego. Como Francisco Goya, que é considerado o “inventor” de sua própria arte, só creditando o seu desenvolvimento ao conterrâneo Velázquez. Em 1778, Goya trabalhou longamente numa série de gravuras que reproduzem retratos da realeza, num total de vinte e um trabalhos sobre Velázquez, dos quais só publicou 11, como este:
Las Meninas, após Velázquez - Francisco Goya Metropolitan Museum – Nova Iorque
Ou como Picasso que se fechou no estúdio da sua casa La Californie, perto de Cannes, entre agosto e dezembro de 1957, para produzir 58 óleos sobre tela a partir de Las Meninas – quarenta e quatro inspiradas diretamente no modelo, nove pequenos pombos, três paisagens e duas interpretações livres. Picasso estava mais interessado no desenvolvimento do seu próprio pensamento, do quenas “idéias”, elas mesmas, como coisas estáticas e admiráveis, que podem interromper o fluxo, cobrar compromissos, paralisar.
Las Meninas, após Velázquez - Pablo Picasso. Museu Picasso, Barcelona.
Ou, ainda, a fotógrafa austríaca Jaqueline Vanek, que “pensou” Las Meninas com fotografia e colagem:
Las Meninas, após Velázquez - Jaqueline Vanek Coleção da Artista
O quadro registra um momento, um exato e veloz momento, quando os pais da Infanta, Reis de Espanha, entram na sala do Palácio de Alcàsser, em Madri, onde o artista trabalhava, para visitar a pequena Marquerita - ela é a protagonista do evento, no centro e na frente. As figuras deles estão no espelho, no centro e ao fundo, e tudo na imagem se organiza neles. Mas os olhares convergem – neste duplo que Velázquez cria pelo artifício do espelho – “para cá”, para nós, eu e vocês, e todos os que olharam alguma vez para Las Meninas nestes últimos 350 anos – o quadro se dirige, coloca em destaque, este público imenso, incontavelmente maior do que todas as cortes de Espanha – o público. Nós. Todos nós.
Um, mais um, outro, outro ainda, um para o outro, para o outro, numa cadeia possivelmente infinita de olhares e pensares. Idéia-criação que dispara idéias e criações. E daí?
Daí que Yo-Yo Ma vai se apresentar em São Paulo três vezes – 18, 19 e 20 de junho. Daí que continuam a perguntar se ele é o número 1 do violoncello, e ele tem que explicar, como todo músico tem que explicar - que música não é campeonato de nada. Daí que continuam a dizer que a música popular e a música clássica e tal e tal. E ele tem que explicar, com muito cuidado, que as categorias são outras.
E daí?
Daí que precisamos insistir em cadeias que podem ser infinitas – de imagens, de obras-primas, de interpretações e interpretações, de entendimentos e diálogos, onde as categorias classificatórias, emperram, atrapalham, desviam.
E daí? Daí, Yo-Yo Ma, um violoncelo, uma Suíte de Bach, e quinhentos anos de arte sobre a mais intrigante beleza.
Daí que olhei para o lado e minha mulher tinha minha filha nos braços e elas se olhavam. E eu pensei nestes rostos femininos, nestas imagens em reflexo e aprendizagem e mútua invenção. Nestes rostos que são mais femininos quanto mais são permanente transformação.
Eu, o que olha, o que busca, o que perplexo, admirado de amor, me confesso.
Cinema em Burbank, Califórnia Fotos Met Opera - Divulgação
Não, não é mais uma grande ópera filmada por um diretor de cinema. O título é no sentido literal: nos últimos cinco meses, algumas das melhores montagens do Metropolitan Opera, de Nova Iorque, têm sido transmitidas simultaneamente em dezenas de cinema dos Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Suécia, Noruega, Dinamarca, Inglaterra e Japão. Em breve chegarão à França, Itália, Bélgica, Áustria e Espanha. O sucesso é retumbante. Em dezembro de 2006, a “Flauta Mágica”, de Mozart, atingiu 21.000 pessoas em 98 salas; em abril passado, “O Trítico”, de Puccini, foi visto por 48.000 pessoas, em 248 salas. Os outros títulos são “O Barbeiro de Sevilha”, de Rossini; “Eugene Onegin”, de Tchaikovsky; a estréia mundial de “O Primeiro Imperador”, de Tan Dun; e “ I Puritani”, de Bellini.
Peter Gelb, o competente diretor da casa, conta que o público total foi de 800.000 expectadores, gerando um lucro (palavra quase desconhecida no mundo da ópera) de 3 milhões de dólares. Mas ele destaca que os maiores ganhos são o crescimento da procura de ingressos para as apresentações ao vivo, o entusiasmo dos técnicos e elencos da companhia e o aumento considerável do público de ópera como um todo. Companhias de Miami, Paris e Londres já planejam lançar suas produções e a venda de ingressos, cds e dvds nas cidades onde as transmissões foram transmitidas, dispararam.
O mesmo fenômeno aconteceu quando, nos anos 30, as récitas dos domingos começaram a ser transmitidas ao vivo pelo rádio e, na década de 50, pela televisão.
Não existe arte velha. O que elas exigem são permanente atualização tecnológica de realização e acesso. O MET sempre liderou este processo.
SUOR ANGELICA - IL TRITTICO G.Puccini Metropolitan Opera - NEW YORK
Se estamos na era da imagem, os amantes da música não tem com o que se preocupar. Esta seção será dedicada a demonstrar como nossa arte é sempre espetáculo.