Hoje nós acendemos todas as velinhas e não conseguiremos apagar nenhuma. Nosso aniversariante é um certo pássaro feito de fogo por um russo genial que trouxe para a música melodias e ritmos que ele buscou nas tradições russas não como uma citação, não como um nacionalista, mas como uma memória que o constituía. Igor Stravinsky estreou o seu Pássaro de Fogo neste dia no ano de 1910 na Ópera de Paris. O libreto, baseado num conto popular russo, foi escrito e a coreografia do balé foi composta por Michel Fokine, coreógrafo principal dos Balés Russos, companhia de Sergey Diaghilev. O figurino foi desenhado por Leon Bakst. Ouça esta interpretação da Suíte para Orquestra – Dança Infernal, Cantiga de Ninar e Hino Final – com a Orquestra Filarmônica de Berlim, sob a regência de Claudio Abbado.
É isso mesmo, tem toda razão o leitor – este Clube está parecendo uma casa de festas. Hoje é o aniversário de EDWARD GRIEG, compositor norueguês nascido em Bergen em 1843, num 15 de junho como hoje. Este é o Ano Grieg, para lembrar os 100 anos de sua morte mas, é claro, eu prefiro comemorar seu nascimento.
Grieg é o compositor norueguês mais conhecido, principalmente pelo sucesso de seu Concerto para Piano em Lá menor e das duas Suítes Peer Gynt, com os temas principais da obra composta para a encenação do poema-dramático Peer Gynt do grande poeta Henrik Ibsen, também norueguês.
Alberto Nepomuceno casou-se com a pianista norueguesa Walborg Bang, aluna de Grieg, de quem o grande compositor brasileiro tornou-se amigo, tendo morado uma temporada na sua casa em Bergen.
Para comemorar, vamos ouvir o seu Concerto para Piano em Lá menor, interpretado pelopianista (também norueguês!) Leif Ove Andsnes em um Prom Concert, no Royal Albert Hall, em Londres, com a Orquestra da BBC, sob a direção de Leonard Slatkin. Leif foi premiadíssimo por sua gravação dos concertos de Rachmaninov com a Filarmônica de Berlin, sob a regência de Antonio Pappano, e tem sido considerado um dos melhores pianistas de sua geração.
Como sempre, infelizmente, a apresentação está partida em três, mas vale a pena. Boa música!
Concerto para Piano em Lá menor, Edvard Grieg - Parte 1
Concerto para Piano em Lá menor, Edvard Grieg - Parte 2
Concerto para Piano em Lá menor, Edvard Grieg - Parte 3
Pois é, gostei de comemorar aniversários. Neste fim de semana, aconteceram dois muito importantes.
No dia 10, Judy Garland, nascida neste dia, em 1922. Para mim, ela será para sempre Dorothy, a menina do interior empoeirado e triste do Kansas, que sonhava com um lugar para além do arco-íris aonde todos os sonhos se realizariam. Um tornado leva a menina até aquele lugar súbita e exageradamente colorido, “muitas léguas a leste de lugar nenhum”. Mas lá é longe de casa – e, agora, ela só quer voltar. Para isso, terá que percorrer a longa estrada dos tijolos amarelos, até o castelo do Mágico de Oz. No caminho ela fará alguns amigos e, com seus sapatinhos vermelhos, perseguirá o caminho de volta para casa. O Mágico de Oz é um clássico moderno: nossa era é cheia de possibilidades e maravilhas, mas os sonhos coloridos são, freqüentemente, dominados por magos manipuladores de truques - seus poderes são vazios. Nós, que temos os DNAs mapeados, que quebramos as previdências sociais do mundo com nossa longevidade, que tornamos o globo simultâneo, que conectamos instantaneamente qualquer informação, que achamos demorado e enfadonho cruzar continentes em algumas horas, que ampliamos e aprofundamos as discussões sobre os nossos direitos a impensáveis diversidades uma geração atrás, carregamos nós áspera e gorda travada na garganta, sempre e em qualquer lugar – temos, sempre, saudades de casa. Uma casa ancestral e irreconhecível, um lar, que é sempre busca. E é disso que aquele velho filme nos lembra, mostrando a nossa frente aquela interminável estrada de tijolos amarelos.
Garland, que tinha 17 anos, ganhou um Oscar especial pelo filme, em 1939. O Mágico de Oz também ganhou o prêmio pela melhor trilha original e por essa que é uma das mais lindas canções da história do cinema:
Somewhere Over the Rainbow
Judy Garland morreu prematuramente, aos 47 anos, dois quais trabalhou por quase 45. Fez 32 filmes, teve um programa de tv indicado 10 vezes ao Emmy, gravou mais de 100 canções, 12 álbuns e um deles, Judy at Carnegie Hall, recebeu 5 prêmios Grammy em 1962, incluindo o de melhor disco do ano. Não sou um fã de seu trabalho fora do Mágico de Oz, mas adoro a sua versão de Insensatez, do nosso Tom Jobim.
ISRAEL KAMAKAWIWO’OLE
Ele tinha uma voz macia, um corpo que engordou desde a infância até morrer, aos 38 anos, em 1997. Era adorado no Havaí, cuja música tradicional ele difundiu com seu estilo contemporâneo. Mas o que fez dele um astro premiado internacionalmente foi sua versão de
Somewhere Over the Rainbow
OUTRO ANIVERSARIANTE
A outra comemoração é coisa para esticar a conversa: também neste 10 de junho, em 1865, na cidade de Munique, estreava a ópera que, mudaria o curso da música ocidental – Tristão e Isolda, de Richard Wagner. Ela lança mão de uma lenda celta, cantada em versos pela primeira vez por Gottfried de Strasburgo, em 1210, para contar a estória de mais este amor impossível que, modificada e transformada em grande arte por Wagner, se transformará em um casal universal, como Romeo e Julieta. Entre a primeira vez em que pensou nela até a sua completá-la, Wagner levou 11 anos. Ela é a sua obra mais madura, a minha preferida e poderia ter estrado no Rio de Janeiro, a convite do imperador Pedro II feito desde 1857. Mas o Rio de Janeiro não foi o único a perder a oportunidade – os músicos em Viena desistiram depois de 54 ensaios sucessivos e extenuantes.
A importância e a grandeza dessa obra não cabem assim, num pequeno comentário. Por isso, vou me estender por algumas postagens ao longo dos próximos dias. Para começar, o começo: selecionei uma versão que considero primorosa do seu Prelúdio, executada pela Orquestra Sinfônica de Chicago, sob a direção de Georg Solti, na época seu diretor musical. Uma oportunidade de ouvir o que ficou consagrado como o “som de Chicago”, uma construção que passou por regentes como Rafael Kubelik e Fritz Reiner, mas que se consolidou nos 22 anos de Solti à frente da orquestra. Esta escolha tem, ainda, uma outra razão importante. Por causa de seu anti-semitismo e pelo uso que o nazismo fez dele, Wagner tornou-se um nome maldito durante décadas – e ainda hoje, entre uma grande parte do público. Do ponto de vista político, histórico e moral isto não se constitui, na miha opinião, uma injustiça. Wagner escreveu e publicou o que escreveu a esse respeito. Mas isso não deve nos privar da genialidade de sua música. O primeiro a afirmar esta idéia enfática e corajosamente, foi um grande músico judeu, perseguido pelo nazismo, chamado Georg Solti, ao gravar, pela DECCA, todo o ciclo conhecido como O Anel dos Nibelungos, uma tetralogia formada pelas óperas O Ouro do Reno, A Valquíria, Siegfried e O Crepúsculo dos Deuses. A gravação, com a Orquestra Filarmônica de Viena, foi a primeira a ser realizada em estéreo, levou 7 anos para ser concluída, tem 19 horas de música, reuniu um elenco de estrelas como Birgit Nilsson, Kirsgen Flagstad, Hans Hotter e Dietrich Fischer-Dieskau e é considerada, até hoje, a melhor versão realizada. Aliás, Georg Solti é o recordista no número de Grammy – o grande prêmio do mundo do disco - que ganhou: um total de 33.
No dia 5 de setembro de 1997, quando Solti morreu, subitamente, em sua casa em Antibes, na França, eu estava em uma sala de ensaios na ópera de Sófia, na Bulgária. Quando a notícia foi dada, eu vi um elenco formado por quase 200 pessoas entre orquestra, coro, cantores e técnicos, chorar. Eles, como a música, tinham perdido um amigo. O mundo perdia um exemplo. Vamos ouvi-lo.
PRELÚDIO PRIMEIRO ATO - TRISTÃO E ISOLDA - Richard Wagner
Las Meninas - Diego Velázquez Museo del Prado - Madri
Hoje é o aniversário de nascimento de Diego Rodríguez de Silva Velázquez, que nasceu num 6 de junho como este, no ano de 1599, na magnífica cidade de Sevilha, na Espanha, para tornar-se o seu mais importante artista no século 17. Pelos seus efeitos de forma e textura, espaço, luz e atmosfera – criados pela brilhante diversidade de técnicas do pincel e por sutis harmonias de cor, foi o precursor dos impressionistas do século 19. Para saber mais sobre ele, leia aqui, na confiável Enciclopédia Britânica.
Vamos aproveitar e reunir os nossos aniversariantes recentes neste filme com as obras de Diego e a Suíte espanhola para piano, Op. 47, No.1: Granada, de Isaac Albéniz, aqui adaptada para o violão.
O quadro lá de do início - Las Meninas - é uma obra-prima de luzes e cores, mas também de narrativa. Todas as figuras estão presentes, arrumadas genialmente - um auto-retrato do artista à esquerda, reflexos do Rei Felipe IV e da Rainha Mariana no espelho no fundo da sala, e da Infanta Margarita com as suas meninas, como eram chamadas as damas de honra, na frente. O olhar sempre pode ir adiante, descobrir e descobrir, porque ali não está só um quadro, mas uma crônica inteira da côrte, da Espanha, das artes, naquela época, além de uma provocação que ecoa hoje, agora. Pensar também é assim – memórias, imaginações, devaneios, vontades, uma coisa que leva a outra, que leva a outra, e mais uma, ainda, sempre mais uma... E daí?
Daí que Velázquez me lembrou da Espanha, que me lembrou Madrid, que me lembrou seus museus, que me lembrou os artistas que ficaram encantados com aquela obra do mestre Diego. Como Francisco Goya, que é considerado o “inventor” de sua própria arte, só creditando o seu desenvolvimento ao conterrâneo Velázquez. Em 1778, Goya trabalhou longamente numa série de gravuras que reproduzem retratos da realeza, num total de vinte e um trabalhos sobre Velázquez, dos quais só publicou 11, como este:
Las Meninas, após Velázquez - Francisco Goya Metropolitan Museum – Nova Iorque
Ou como Picasso que se fechou no estúdio da sua casa La Californie, perto de Cannes, entre agosto e dezembro de 1957, para produzir 58 óleos sobre tela a partir de Las Meninas – quarenta e quatro inspiradas diretamente no modelo, nove pequenos pombos, três paisagens e duas interpretações livres. Picasso estava mais interessado no desenvolvimento do seu próprio pensamento, do quenas “idéias”, elas mesmas, como coisas estáticas e admiráveis, que podem interromper o fluxo, cobrar compromissos, paralisar.
Las Meninas, após Velázquez - Pablo Picasso. Museu Picasso, Barcelona.
Ou, ainda, a fotógrafa austríaca Jaqueline Vanek, que “pensou” Las Meninas com fotografia e colagem:
Las Meninas, após Velázquez - Jaqueline Vanek Coleção da Artista
O quadro registra um momento, um exato e veloz momento, quando os pais da Infanta, Reis de Espanha, entram na sala do Palácio de Alcàsser, em Madri, onde o artista trabalhava, para visitar a pequena Marquerita - ela é a protagonista do evento, no centro e na frente. As figuras deles estão no espelho, no centro e ao fundo, e tudo na imagem se organiza neles. Mas os olhares convergem – neste duplo que Velázquez cria pelo artifício do espelho – “para cá”, para nós, eu e vocês, e todos os que olharam alguma vez para Las Meninas nestes últimos 350 anos – o quadro se dirige, coloca em destaque, este público imenso, incontavelmente maior do que todas as cortes de Espanha – o público. Nós. Todos nós.
Um, mais um, outro, outro ainda, um para o outro, para o outro, numa cadeia possivelmente infinita de olhares e pensares. Idéia-criação que dispara idéias e criações. E daí?
Daí que Yo-Yo Ma vai se apresentar em São Paulo três vezes – 18, 19 e 20 de junho. Daí que continuam a perguntar se ele é o número 1 do violoncello, e ele tem que explicar, como todo músico tem que explicar - que música não é campeonato de nada. Daí que continuam a dizer que a música popular e a música clássica e tal e tal. E ele tem que explicar, com muito cuidado, que as categorias são outras.
E daí?
Daí que precisamos insistir em cadeias que podem ser infinitas – de imagens, de obras-primas, de interpretações e interpretações, de entendimentos e diálogos, onde as categorias classificatórias, emperram, atrapalham, desviam.
E daí? Daí, Yo-Yo Ma, um violoncelo, uma Suíte de Bach, e quinhentos anos de arte sobre a mais intrigante beleza.
Daí que olhei para o lado e minha mulher tinha minha filha nos braços e elas se olhavam. E eu pensei nestes rostos femininos, nestas imagens em reflexo e aprendizagem e mútua invenção. Nestes rostos que são mais femininos quanto mais são permanente transformação.
Eu, o que olha, o que busca, o que perplexo, admirado de amor, me confesso.
Hoje é aniversario do compositor espanhol ISAAC ALBÉNIZ, que nasceu em Camprodón, Girona, em 29 de maio de 1860.
Ele foi o mais velho da geração que reuniu também Enrique Granados, Manuel de Falla e Joaquin Turina, e que fez dos vários e brilhantes caminhos do flamenco e do cante jondo, do aurresku basco, da jota de Navarra, da sardana catalã, da seguidilla e do bolero de Castela, a larga avenida do nacionalismo espanhol. Gosto da sua música e das peripécias da sua vida.
Albéniz poderia ter sido apenas mais um menino prodígio que estreou aos 4 anos no Teatro Romea de Barcelona e que aos 6 foi para Paris estudar com Marmontel. Foi mais um anunciado como “o novo Mozart” – agora mesmo há outro, sobre o qual escreverei em breve. Sobreviveu ao que o violinista Joshua Heifetz (também ele uma vítima) chamava “a doença do menino prodígio” fugindo do pai explorador aos 10 anos de idade!
Desde então, Albéniz foi seu próprio empresário. Organizou recitais e concertos para si mesmo em Ávila, Peñaranda de Bracamonte, Zamora, Toro, Valladolid, León, Logroño, Zaragoza, Barcelona, Málaga, Granada e Cádiz. Quando viu que cuidava muito bem de si próprio e que conquistava um público disposto a pagar para ouvi-lo tocar piano, tratou de deixar seu país e conquistar o mundo – aos 12 anos tocou no Rio de Janeiro e em Buenos Aires, aonde foi alcançado pelo pai que, lá mesmo, decidiu deixá-lo em paz. No ano seguinte, sempre sozinho, Albéniz apresentou-se em Porto Rico, Havana e Santiago de Cuba. Seguiu para o México e, de lá, para ser carregador de malas em Nova Iorque, cidade que não reconheceu seu talento e perdeu-o para um sucesso consagrador em São Francisco. De lá, partiu para uma série de concertos em Londres, de onde seguiu para estudar em Leipzig e, logo depois em Bruxelas, cidade aonde perdeu seu melhor amigo de libertinagem, que se suicidou depois que os dois foram levados aos tribunais acusados de devassidão. Aos 18 anos foi encontrar Liszt em Budapeste, de quem se tornou um aluno predileto, e que o acompanhava por toda parte. Para descansar, ingressa como noviço entre os beneditinos de Salamanca e, entre uma fuga e outra do convento, dirige uma companhia ambulante de zarzuelas. Casou aos 23 anos com Rosina Jordana, foi um marido e um pai exemplar, dando início a uma vida de criação intensa e carreira pianística muito bem sucedida. Um exemplo para quem acha que artistas precisam sofrer para criar.
Se você quer saber mais sobre ISAAC ALBÉNIZ, um bom começo é o site do CENTRO VIRTUAL CERVANTES.
Para comemorar a data, vamos ouvir JOHN WILLIAMS tocar ASTÚRIAS (Leyendas).